GIGI SULEIMAN

@lucyintheskywalker

No ano de 1984, Margaret Atwood termina de escrever aquela que se tornaria uma das obras mais influentes da literatura contemporânea e da literatura distópica: O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale). A literatura distópica retrata aspectos reais da sociedade; como na obra de Atwood, essa ficção dialoga com a realidade. A distopia, palavra de etimologia grega, significa um lugar ruim – dis = ruim e topia = lugarm. Com isso em mente, na literatura distópica, existe sempre uma força opressora que está em constante atrito com o protagonista[1] e a sociedade, por sua vez, representa o papel de antagonista.[2] Normalmente, esse antagonista distópico é um governo totalitário[3] e, consequentemente, não admitee liberdade social.

A obraa de Atwood, como boa parte das obras distópicas, apresenta um governo totalitário e teocrático que toma controle, por meio de uma ditadura militar teonômica,[4] do que antes eram os Estados Unidos da América, transformados pela mesma naaAa República de Gilead. É nesse cenário que a protagonista, Offred, narra a sua experiência como uma Aia. As Aias são forçadas a serem servas desse governo no qual a sua única função é a reprodução dos filhos dos comandantes. Em um tempo de baixo índice de natalidade do mundo, atingido graças ao contato com muitos produtos químicos (pesticidas, bombas nucleares etc.) e maior autonomia contraceptiva feminina, as mulheres que conseguiram engravidar antes do golpe militar eram colocadas como Aias. Quando fértil, a Aia é estuprada pelo seu comandante, enquanto a esposa deste assiste ao ritual chamado de Cerimônia. Todos esses atos são defendidos por passagens bíblicas em uma falsa tentativa de expiar a culpa das atrocidades que a humanidade causa a si mesma. O que nos leva a questionar quantos atos horrendos são defendidos ou não  perante a lei, sejam as de cunho religioso, moral ou social, diariamente?

Em Gilead, a obediência é fundamental para os servos e os funcionários, seus papéis são designados e as ordens devem ser seguidas para o bom funcionamento do sistema ditatorial. No intuito de descaracterizar e massificar a população agora subjugada, nomes são trocados, famílias são separadas e quem não obedecer, for homossexual, for infiel, tentar fugir ou conspirar contra o estado é punido – membros são mutiladosc, olhos arrancados, entes queridos sofrem ameaçass, e muitas vezes, é sentenciado à morte. Os nomes dados às Aias dizem quem são seus donos.[5] Quais seriam nossos nomes? Quem são os nossos donos? Offred era June, esposa, mãe, tinha um emprego em uma editora, uma melhor amiga lésbica e posicionamentos feministas. Enquanto o mundo continuava no século XXI, conforme o conhecemos hoje, os Estados Unidos da América adotam uma sociedade antiquada na qual a privação da liberdade se estende para todos os aspectos da vida, principalmente para as mulheres.

Cada pessoa é forçada a ter uma função. Os militares governam, suas esposas esperam e criam os as cranças geradas pelas Aias, e o resto da sociedade é separada, não de acordo com a sua formação acadêmica, seus trabalhos, títulos ou conquistas, mas são separados pelo seu biotipo. Mulheres mais jovens que conseguiram e ainda conseguem engravidar viram Aias, mulheres mais velhas ou que não engravidam viram Marthas, que desempenham as funções de empregadas e faxineiras, homens mais jovens são Anjos, uma espécie de soldado para os Comandantes e assim por diante. Não existem outros casais além dos Comandantes. Não existe nenhuma forma de entretenimento ou diversão para os servos e funcionários – televisão, livros, sexo, música, nada.

Na literatura distópica, muitas vezes, as obras acabam dialogando umas com as outrasi em diversos aspectos. Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, as castas são separadas pela cor da sua vestimenta, assim como em O Conto da Aia: vermelho para as Aias, marrom para as Marthas, azul para as esposas e os Comandantes usam terno e gravata. Atwood termina a sua obra em 1984, ano que dá título à obra de George Orwell, uma das mais famosas do gêneroa. Em 1984, de Orwell, é apresentado um cenário em que há um alto, praticamente constante, monitoramento da sociedade, conhecido como Big Brother. Na República de Gilead, existem os Olhos, homens que são espiões, e estão sempre monitorando. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, a leitura era proibida e os livros queimados, e em Gilead as mulheres são proibidas de ler ou escrever (se uma mulher o fizer, perde um dedo).

A distopia, normalmente, cria uma situação que priva a sociedade de uma das coisas mais importantes para nós: nossa liberdade. A obra aborda temas como a luta e a força feminina, a luta e a força da maternidade, a homofobia, os exageros puritanos, a corrupção governamental e principalmente a luta pela liberdade. Uma das partes mais interessantes da obra é como Offred se comporta e o tom que ela narra a sua situação. Ela respeita todas as regras e cumpre o seu papel de Aia, mas, sendo um mulher formada no século XXI, Offred ainda possui s pensamentos e uma visão própria para tudo aquilo que está acontecendo com ela, sobre como esse governo é forrado de sarcasmo e poder. Pouco a pouco, sua obediência se torna uma revolução e sua submissão se torna luta.

Apesar dos exageros que toda ficção distópica comete, estes são sempre caricaturas de possibilidades viáveis que remetem ao caráter e às atitudes humanas. O Big Brother de Orwell era assustador, a ideia de ser monitorado incabível, e agora? O Big Brother perde para as construções sociais estabelecidas e aceitas por nós e para as redes sociais. A obra de Atwood – agora adaptada em um seriado pelo serviço de streaming, Hulu –s, já é considerada uma das mais icônicas de nosso tempo e temos que questionar e temer o porquê disso. Quais são as repressões que sentimos reverberar de Offred para nós? Quanto nos escravizamos e quanto nos submetemos pela nossa sobrevivência? Quanto da nossa liberdade nos é tomada pela nossa sociedade?

 

[1] Personagem principal da obra.

[2] Obstáculo do protagonista.

[3] Um governo que retém todo poder e controle.

[4] Visão da ética cristã na qual as leis de Deus devem ser consideradas como as leis de todos os aspectos da vida em sociedade.

[5] Offred é “of Fred” que no português fica “de Fred”. Fred é seu Comandante, ou seja, seu dono.

@lucyintheskywalker